O alfabeto latino: regras básicas de escrita e pronúncia



1. Grafia:

O alfabeto latino é o mesmo da língua portuguesa, excetuando-se aquelas letras de origem anglo-germânica (k, y, w). As vogais e consoantes têm a mesma classificação e são grafadas da mesma maneira, tanto nas maiúsculas como nas minúsculas.



2. Pronúncia:

Releva observar que as regras abaixo se inserem no contexto do chamado latim eclesiástico, que foi a forma da pronúncia latina utilizada no Brasil até os anos 60. Sem desconhecer que existem outras pronúncias, sobretudo a pronúncia reconstruída, prefiro adotar a pronúncia eclesiástica, por ser mais aproximada da pronúncia do português brasileiro.

Os sons correspondentes às letras do alfabeto em latim têm a mesma característica da pronúncia em português, com algumas pequenas diferenças, que apresentamos a seguir:

2.1. As vogais devem ser pronunciadas com o som original da letra, mesmo quando não são tônicas. Por exemplo: em português, a palavra "belo" pronuncia-se ''bélu''; já em latim, a palavra ''bello'' pronuncia-se ''bélo''. Em português, a palavra ''triste'' pronuncia-se ''trísti''; já em latim, a palavra ''Christe'' pronuncia-se ''kríste''. A palavra ''objeto'' em português pronuncia-se ''objetu''; em latim, a palavra ''objecto'' pronuncia-se ''obiékto''. Isto é, as vogais são sempre pronunciadas com os seus sons originais. Note-se ainda a existência dos grupos vocálicos 'oe' e 'ae', que são pronunciados como 'e' aberto. Por exemplo, 'coelum' pronuncia-se 'célum'; 'laetitia' pronuncia-se 'letícia'.

Convém observar que no português que se fala em Portugal, diferentemente do que se fala no Brasil, até pouco tempo as palavras ainda conservam a consoante que tinham na sua forma original do latim, por exemplo, 'objecto', 'facto', 'acto', 'subjectivo', acontecendo o mesmo também em espanhol. Porém, a partir do Acordo Ortográfico assinado pelos países lusófonos em 2008, também em Portugal esta consoante originária do latim deverá aos poucos entrar em desuso. Isto significa que as mutações ocorridas na língua portuguesa no território brasileiro findaram por criar uma variação linguística ainda mais distanciada da fonte latina comum a todos nós e que se tornou padrão para todos os demais países de língua portuguesa.

2.2. Algumas consoantes assumem sons diferentes, conforme o caso:

2.2.1. A letra ''t'' antes de ''i'' tem som de ''s'', quando a sílaba não é tônica. Ex.: ''gratia'' pronuncia-se ''grássia''; ''locutio'' pronuncia-se ''locússio''; ''fortiori'' pronuncia-se ''forsióri''.

2.2.2. A letra ''j'' tem sempre som de ''i''. Ex.: ''jus'' pronuncia-se ''iús''; ''Jesus'' pronuncia-se ''iésus''; ''jacta'' pronuncia-se ''iácta''.

2.2.3. O grupo consonantal ''ch'' tem som de ''k''. Ex.: ''machina'' pronuncia-se ''mákina''; ''charitas'' pronuncia-se ''káritas''; ''chorda'' pronuncia-se ''kórda''.

2.2.4. O grupo consonantal ''gn'' tem som de ''nh''. Ex.: ''ignis'' pronuncia-se ''ínhis''; ''cognosco'' pronuncia-se ''conhósco''; ''regnum'' pronuncia-se ''rénhum''.

2.2.5. O grupo consonantal ''ph'' tem som de ''f'', igual ao português arcaico.



3. Algumas características da fraseologia latina:

3.1. Não há artigos definidos e indefinidos.

3.2. Em geral, não há palavras oxítonas.

3.3. É usual ficarem palavras ocultas (subentendidas).

3.4. O verbo geralmente fica no final da oração.

3.5. A regência dos verbos nem sempre corresponde ao português.



4. O uso das consoantes 'j' e 'v' na língua latina:

Os romanos da época de Cícero (século I a.C.) não conheciam os sons correspondentes às consoantes 'j' e 'v', utilizando as letras 'i' e 'u', respectivamente, que algumas vezes funcionavam como vogais, outras vezes como consoantes. Só a partir do século XVI, por influência dos estudiosos do latim medieval, começaram a aparecer estas consoantes na grafia das palavras, todavia a pronúncia continuou sendo correspondente à das vogais 'i' e 'u'. Isto quer dizer que estas consoantes não pertencem ao latim clássico, mas foram já uma influência regressiva das línguas neolatinas sobre a língua mãe.

Esta alteração, porém, justamente por ser considerada uma influência das línguas européias sobre o latim original, é rejeitada por alguns estudiosos mais puristas, que defendem a pronúncia reconstruída do latim.

A disseminação da escrita do latim com as letras 'j ' e 'v' se deu, sobretudo, pela atuação da Igreja Católica, tendo em vista que o latim é ainda hoje a sua língua oficial, e o estudo do latim nas escolas sempre foi orientado pelo latim eclesiástico.


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